Paul Gilbert transforma Fabrique Club (SP) em uma aula de guitarra, rock e bom humor
O Guitarrista norte-americano revisitou diferentes fases da carreira em apresentação marcada por virtuosismo, clássicos, improvisos e muita interação com o público

📸 Abner Cestari
São Paulo recebeu, na última terça-feira (08/09), uma das figuras mais importantes da história da guitarra de hard rock. No palco do Fabrique Club, na Barra Funda, Paul Gilbert mostrou por que continua sendo uma referência para diferentes gerações de músicos, mas também deixou claro que seu maior trunfo atualmente talvez não esteja apenas na velocidade dos dedos.
A técnica continua lá. A precisão também. As escalas executadas em alta velocidade, os riffs, os arpejos e a sonoridade característica de Paul Gilbert seguem impressionantes. Mas, durante a apresentação em São Paulo, ficou evidente que o guitarrista sabe muito bem que um grande show não se constrói apenas com demonstrações de habilidade.
O resultado foi uma noite que combinou virtuosismo, repertório histórico, música nova, improvisação e, principalmente, bom humor.
A apresentação fez parte da atual WROC Would Tour, dedicada ao álbum WROC, lançado em fevereiro de 2026 e primeiro trabalho de Paul Gilbert com músicas cantadas (em uma década). O disco parte de um conceito inusitado: as antigas regras de civilidade associadas a George Washington foram transformadas pelo guitarrista em matéria-prima para canções de rock, mantendo o humor e a personalidade que sempre fizeram parte de sua carreira.
Do Racer X ao Mr. Big; e muito além deles...
Antes de se tornar conhecido mundialmente com o Mr. Big, Paul Gilbert já havia construído uma reputação entre os guitarristas mais técnicos de sua geração.
À frente do Racer X, banda que ajudou a fundar nos anos 1980, Paul Gilbert tornou-se uma das referências do chamado "shred", combinando velocidade, precisão e uma musicalidade que ajudou a estabelecer novos parâmetros para a guitarra pesada. Músicas como “Scarified” e “Technical Difficulties” atravessaram gerações e continuam sendo verdadeiros testes de habilidade para guitarristas.
Em seguida veio o Mr. Big, projeto que levou sua guitarra a um público ainda maior. Ao lado de Eric Martin, Billy Sheehan e Pat Torpey, Gilbert participou de uma das formações mais celebradas do hard rock dos anos 1990, responsável por sucessos como “To Be With You” e “Green-Tinted Sixties Mind”.
Depois de sua saída do Mr. Big em 1996, porém, Gilbert nunca ficou preso à imagem de “ex-guitarrista de banda famosa”. Sua carreira solo tornou-se justamente o espaço onde pôde explorar suas muitas influências: hard rock, blues, pop, música instrumental, clássicos da guitarra e diferentes experiências como compositor, professor e músico.

É essa trajetória inteira que aparece quando Paul Gilbert sobe ao palco.
E foi exatamente isso que o público paulistano pôde testemunhar.
Uma retrospectiva que não depende da nostalgia
Um dos méritos da apresentação foi não transformar o passado em uma simples sessão de nostalgia.
O repertório percorreu diferentes períodos da carreira de Gilbert, passando por referências ao Racer X, ao Mr. Big, por sua produção solo e pelas novas músicas de WROC. O espetáculo também incorporou versões de músicas que fazem parte do universo musical do guitarrista.
Entre os momentos documentados no repertório da atual turnê estão “To Be With You”, do Mr. Big, “Technical Difficulties”, do Racer X, além de “Don’t Talk to Strangers”, “Thunderbird”, do ZZ Top, e “Last Child”, do Aerosmith.
E talvez seja justamente essa variedade que faça o show funcionar tão bem.
Gilbert não precisa passar duas horas provando que consegue tocar rápido. Ele já fez isso durante décadas. A questão agora é o que fazer com toda essa técnica.
Em São Paulo, a resposta veio em forma de espetáculo.
Técnica sem transformar o show em competição
Existe uma armadilha recorrente em apresentações de guitarristas virtuosos: transformar o concerto em uma espécie de campeonato técnico.
Paul Gilbert passa longe disso.
Mesmo quando executa passagens que parecem impossíveis, existe uma preocupação evidente em manter o público conectado à música. E isso se torna ainda mais perceptível quando ele abandona a guitarra elétrica para explorar momentos acústicos ou quando transforma determinado trecho em uma demonstração quase didática.
A presença de Doug Rappoport na segunda guitarra também acrescenta uma dimensão interessante ao espetáculo. Em vez de simplesmente preencher espaços, Rappoport contribui para criar uma parede de guitarras que permite a Gilbert alternar entre bases, melodias e solos.
No baixo, Timmer Blakely sustenta a estrutura com segurança, enquanto Jeff Martin, além da bateria, acrescenta uma conexão histórica especialmente interessante: ele foi o vocalista original do Racer X e agora integra a banda de Gilbert como baterista e responsável também por harmonias vocais.
A formação atual é, portanto:
* Paul Gilbert — guitarra e vocais
* Doug Rappoport — guitarra
* Timmer Blakely — baixo
* Jeff Martin — bateria e vocais
É uma banda que consegue reproduzir a complexidade dos arranjos sem transformar tudo em uma demonstração excessivamente cerebral.
O humor como parte fundamental do espetáculo
Talvez uma das maiores surpresas para quem conhece Gilbert apenas pelos vídeos de guitarra seja perceber o quanto ele é um entertainer.
Entre uma música e outra, o guitarrista conversa, brinca, conta histórias e cria uma relação bastante direta com a plateia.
Em vez da postura distante do “guitar hero” intocável, Gilbert parece muito mais interessado em dividir a experiência com quem está diante do palco.
E isso muda completamente a atmosfera do show.
A apresentação deixa de ser apenas “Paul Gilbert mostrando o que sabe fazer” e passa a ser uma espécie de encontro entre músico e público.
Essa característica não é acidental. O próprio Gilbert já destacou o carinho que possui pelo público brasileiro, descrevendo os shows no país como experiências particularmente positivas.
Na prática, essa relação apareceu durante toda a apresentação.
O público respondia, Paul Gilbert provocava, brincava e voltava para a guitarra. Em seguida, novamente conversava. E assim o show encontrava um equilíbrio raro entre aula, concerto e celebração.
WROC: uma nova fase sem abandonar o passado
Embora o repertório tenha espaço generoso para a história do guitarrista, a turnê não existe apenas para revisitar o passado.
WROC representa uma nova etapa da carreira de Gilbert.
O álbum é seu primeiro trabalho com músicas cantadas em dez anos e nasceu de uma ideia tão peculiar quanto característica do músico: transformar antigas regras de civilidade em canções de rock.
O conceito poderia facilmente resultar em um disco conceitual excessivamente excêntrico. Gilbert, porém, transforma o material em riffs, melodias, harmonias e letras com o seu conhecido senso de humor.
No palco, essas músicas convivem naturalmente com o material antigo.
E essa talvez seja a melhor definição para a atual fase de Paul Gilbert: um músico que não precisa escolher entre celebrar sua história e continuar criando.
Uma experiência que começou antes do show
Outro ponto de destaque da passagem brasileira foi a possibilidade de aproximação oferecida aos fãs por meio dos pacotes especiais.
A VIP Experience permitiu que os participantes tivessem uma experiência mais próxima do artista, incluindo acesso à passagem de som, foto com Paul Gilbert, credencial exclusiva, camiseta, palhetas e uma foto autografada.
Além disso, foi disponibilizada a Private Guitar Lesson, uma aula individual de 35 minutos com Paul Gilbert.
A proposta ia muito além de simplesmente assistir a uma demonstração. O participante poderia levar dúvidas, mostrar sua maneira de tocar, conversar sobre técnica, improvisação e música e até tocar junto com Gilbert. A experiência incluía amplificador, afinador e cabo, ficando para o aluno apenas a responsabilidade de levar sua guitarra.
Em São Paulo, a modalidade de aula chegou a ficar esgotada, o que mostra o tamanho do interesse que Paul Gilbert ainda desperta entre guitarristas e estudantes.
É um detalhe importante porque ajuda a entender a dimensão da relação que o músico construiu com seu público: Paul Gilbert não é apenas alguém que toca guitarra para guitarristas. Ele também é alguém de quem guitarristas querem aprender.
Setlist
O repertório registrado para a passagem brasileira e para a atual etapa da WROC Would Tour inclui:
1. Crazy PG Medley
2. Let Thy Carriage
3. Go Not Thither
4. Keep Your Feet Firm and Even
5. Maintain a Sweet and Cheerful Countenance
6. To Be With You — Mr. Big
7. Technical Difficulties — Racer X
8. Three Times Rana
9. Don’t Talk to Strangers — Dio
10. Thunderbird — ZZ Top
11. Last Child — Aerosmith
12. Spark of Celestial Fire
13. George Washington Rules
14. If You Soak Bread in the Sauce
15. Orderly and Distinctly
16. Stairway to Heaven — Led Zeppelin
17. Show Not Yourself Glad (at the Misfortune of Another)
O Crazy PG Medley, por sua vez, reúne diversos momentos da carreira solo de Gilbert e referências a músicas como “The Curse of Castle Dragon”, “Down to Mexico”, “Green-Tinted Sixties Mind”, “Scarified”, “Fuzz Universe”, “Hurry Up”, “To Be With You” e outras.
Curitiba, São Paulo e a sequência da turnê
A passagem pelo Brasil começou em 7 de setembro, no Teatro Bom Jesus, em Curitiba, e chegou a São Paulo no dia seguinte, 8 de setembro, no Fabrique Club. (Headbangers News)
Depois do Brasil, a turnê segue pela América do Sul, com apresentações previstas no Uruguai e na Argentina, antes de continuar posteriormente por outras regiões. (Bandsintown)
As apresentações brasileiras foram realizadas pela IDL Entertainment, com divulgação e assessoria da Tedesco Comunicação & Mídia.
O legado continua, mas Paul Gilbert também está olhando para frente
Paul Gilbert já não precisa provar que pertence à história da guitarra.
Seu nome está associado a alguns dos momentos mais importantes do virtuosismo do rock nas últimas décadas. O Racer X ajudou a estabelecer sua reputação. O Mr. Big o levou para uma audiência mundial. A carreira solo mostrou que havia muito mais por trás do guitarrista veloz.
O que o show no Fabrique deixou claro é que, aos 59 anos, Gilbert continua encontrando maneiras de transformar essa história em algo vivo.
Ele pode tocar uma passagem do Racer X, revisitar o Mr. Big, apresentar uma composição nova, fazer uma versão inesperada e, logo depois, parar para conversar com alguém da plateia.
E talvez esteja aí a principal diferença entre assistir a uma lenda e assistir a um músico que continua relevante.
Paul Gilbert não subiu ao palco do Fabrique para mostrar ao público quem ele foi. Subiu para mostrar que ainda está aqui.



Comentários